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Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei. Al i 40

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Entrevista com Poeticus Severus para Akkeldama Zine # 01

01- Saudações caro César Severus! O Poeticus Severus é uma espécie de reminiscência do antigo Goat Emperor. O que você lembra da época de sua antiga banda e da cena underground daqueles tempos:

CESAR SEVERUS: Saudações a você, Thiago, e a todos os apreciadores da arte extrema . Pois bem, da época do Goat Emperor trago muitas lembranças, algumas ruins e outras boas, mas de tudo o que vale é o que ficou e a experiência adquirida, lembro que o movimento extremo era, mesmo com as divergência de gostos musicais, mais unido, mantinhamos contato constante, nos reuníamos na casa de algum amigo, combinávamos de levar cds, k7s, bebidas, churrasco e fazíamos nossas festas, nossos encontros, conversávamos sobre aquela banda nova que surgiu, aquele cd que compramos ou ganhamos de um contato novo, escutavamos curtiamos juntos, risadas, gargalhadas, se algum dos irmãos estava precisando de ajuda, a gente ajudava, enfim, nos preocupávamos um com o outro, eramos amigos, e todos aqueles que nos correspondíamos pelo Brasil e exterior, mantinhamos um elo de amizade, de irmandade, era algo que ultrapassava o valor "monetário", esse realmente nem era presente, nós recebíamos materiais sem custo, mandávamos material sem custo também, era tudo mais puro, conseguir materiais era a coisa mais difícil, isso dava prazer e revelava aqueles que realmente curtiam som extremo, passávamos sons apenas de mãos em mãos, não tinha essa coisa de baixar pela internet, monopolizávamos todo audio, etc., pra passarmos coisas de nossos arsenais nós aguardávamos as pessoas conquistarem a confiança e mostrarem ser merecedores de saber e ouvir tais pérolas.
Pra tocar em eventos não pedíamos cache, isso não existia com bandas underground, tocávamos por prazer, bastava o produtor do evento pagar nossas passagens, dar estadia, bebidas e toda atenção na recepção, nós íamos tocar e mostrar nossa arte, curtir nosso som compartilhando com todos aqueles que queriam nos ver e festejar, comemorar a união underground, a união irreverente e livre da praga cristã. Enfim, falar dessa época até me emociona, sinto grande saudade. Mas, mantenho contato com vários irmãos, amigos dessa época e nós continuamos mantendo essa chama acesa, o que percebo é a falta de fazer toda essa tradição ser mantida, pois nós raramente passamos informações para os novatos que assim como nós já fomos um dia, o metal deve se renovar, para isso nós não podemos reter toda informação, todo o clima só pra gente, tá certo que os mestres são egoístas e só pensam em si mesmo, mas também está escrito em algum lugar que para perdurar o reino é preciso pensar na expansão dos outros, a não ser que se queira um exército de soldados, assim não soma, é preciso ter seres que movam-se por si mesmos, seres livres da escravidão não necessária a sobrevivência que os outros lhe proporcionam, é preciso surgir seres que sejam gritões, questionadores, loucos... seres que não sejam soldados e estejam passiveis a informação ancient, a arte, ao legado que ainda sobrevive naqueles que viveram naquela época. Eu desprezo esses emos e todos os tipos de modas que infestam o underground, quero que se danem, se precisar de ajuda pra jogar ao inferno, estou aí pra isso, que estejam fora todos os modistas desgraçados crististas e seus derivados, seres provenientes da decadência, com isso nós ajudamos a manter acesa essa chama anciente, aquelas bandas que esqueceram suas raízes e só tocam por cache, que se fodam, os produtores que estão ativos só pra ganhar dinheiro também, voltem pra puta que os pariu! Continuo curtindo tocar em ensaios, reunir os amigos e festejar ao redor de uma fogueira regada de vinho, wisky, etc. Daquela época é isso.

02- O Poeticus Severus teve uma excelente repercussão no underground quando lançou o tape e posteriormente a participação na coletânea da Southern Spirit. A banda foi aclamada devido a sonoridade e temática originais. O que você acha que aconteceu para digamos, a coisa ter se estagnado no meio do caminho? Por que o Poeticus Severus não mais lançou materiais inéditos desde então, mesmo estando na ativa?

Descrença no formato padrão do mercado. Não é novidade para ninguém hoje falar que o CD está mais do que em crise. Não tivemos vontade de embarcar nesse formato e o objetivo era mesmo o vinil. Mas o mercado se fechou e não quisemos lançar nada independente . Pensando hoje, não nos submetemos ao que o mercado exigiria em contrapartida. Isso nos colocaria em uma posição de maior compromisso com retorno de investimento, grana, e isso atacaria nossos valores e modificaria a forma como entendemos o metal e nossos ideais. De certa forma, não estamos nem um pouco estagnados, pois fizemos várias apresentações pelo Brasil e contamos com um repertório de mais de 30 músicas que as escolhemos de acordo com o clima do local e nossa vontade. Acho que a estagnação que você se referiu é uma formalidade que o mercado exige em lançar CD, mas enxergamos que essa formalidade está suplantada, pois temos vários canais diferentes para espalhar nossa música. No nosso myspace, por exemplo, temos várias músicas atmosféricas, muito diferente de tudo que ouvi até hoje. Estão lá disponíveis para baixar e ouvir. Para criar um clipe e postar no youtube com a interpretação visual que qualquer um pode dar, através de simples softwares de edição gratuitos. Isso é o presente que não se estagna. As músicas não têm dono. Elas são dinâmicas e podem assumir qualquer forma, já que hoje o hábito de ouvir som apenas, sem nenhum tipo de multimídia agregado,.cada vez mais se parece com um habito ultrapassado. Algo como os ouvintes de rádio antigamente.

03- Quais são as condições atuais da banda? Ensaios, composições novas e previsão para lançamentos?

A banda de forma alguma está estagnada. Ela está sim cristalizada com a mesma formação inicial até hoje, após todos esses anos. Algo raro e que nos orgulhamos muito. Ensaiamos quando temos alguma apresentação marcada e tocamos por volta de 5 vezes por ano. Os lançamentos estão rodando na internet e recentemente produzimos um miniCD para distribuir nas apresentações e para repassar para quem solicitou na comunidade do Orkut, mas evaporou rápido. Composições novas são elaboradas a cada encontro e cada apresentação. Algumas são criadas exclusivamente para um evento. Esse ritmo é bom para todos e não disputa espaço em nossa rotina, pois nós trabalhamos muito e constituímos família.

04- Um aspecto super interessante no Poeticus Severus são as letras compostas de forma poética e hermética. Comente um pouco sobre os temas que a banda procura transmitir nas letras de suas músicas:

São assuntos iniciáticos abordados em diferentes escolas de ocultismo que trilhamos, compartilhamos experiências e fundimos em poesia e som. Abordamos temas necessariamente transcendentais ao nosso cotidiano e muitas das frases ou citações vêm do amago de nossas experiências magiko-filosóficas. Nada do que falamos pertence ao presente cartesiano. Por exercícios, técnicas ou simples abstração conduzimos os interessados para dentro de sua própria mente. Apesar de parecer um exercício introspectivo essa descrição, experimentamos nossa arte em eventos fechados e percebemos que a mesma também funciona bem sociavelmente conduzindo boas sensações . Há um grande prazer em trocar sensações e experiências tanto no palco como em um churrasco ou reunião, por exemplo.

05- O Poeticus Severus já se apresentou também em alguns eventos undergrounds ao lado de grandes nomes da cena nacional. Conte-nos sobre a atmosfera da banda ao vivo:

Procuramos sempre planejar algo diferente. Em Ser Guerreiro postado em : http://www.youtube.com/watch?v=pOXK_RJe_Co procuramos fazer uma apresentação que mescla dança e iconoclastia . Já em outras procuramos passar um clima lúgubre, como foi uma lendária apresentação em Juiz de Fora. Em campinas por exemplo, tocamos de maneira mais informal para uma seleta plateia de apreciadores do metal negro. Nos shows algumas pessoas se envolvem e se entregam e participam, quebram coisas, gritam, ajudam a queimar bíblias, bebem vinho que oferecemos no palco, casais se beijam ao fundo. Já no Rio fizemos uma apresentação que primou pela execução mais precisa e ao fundo colocamos vários vídeos de rituais envolvendo iniciação, sacrifício e magia sexual. No Espírito Santo fizemos um cerimonial que também foi apreciado. São essas coisas que nos motivam e fazemos por puro prazer.

06- Hoje o underground evoluiu muito se compararmos com a época em que precisávamos enviar dezenas de cartas pelo mundo afora para estarmos em contato com a cena. Hoje é tudo muito mais ágil, porém ainda sinto falta um pouco daquele espírito mais “underground” da cena. Em sua visão, como velho ativista do underground, quais são os aspectos positivos e negativos dessa nova era?

Essa é uma era de forte transição. Serviu para consolidar uma brusca revolução tecnologia que mudou profundamente nossos hábitos e maneira como enxergamos o mundo. Em toda mudança, toda a transição, antigos valores perdem sentidos e são colocados à prova. Exatamente agora, enquanto escrevo, acompanho uma iniciativa das bandas de Belo Horizonte para movimentar a cena. As bandas se reuniram, se convocaram, trocaram ideias, e como resultado sairá um CD com cada banda e uma bandeira – o Minas Metal. Correto!
As pessoas não sabem exatamente como agir, já que mudou tudo, muito rapidamente. A solução é se mobilizar e fazer com que a cena se movimente, necessitando aproximar quem é militante veterano. Quem é da antiga vai ter que cuidar da transição para a próxima geração encarar com mais facilidade os cáusticos valores do underground brasileiro que teve seu ápice nos anos 90. Afinal, é um estilo de vida. Pode estar embasado, mas o mesmo estilo de vida permanece no fundo gravado em quem passou por todo o esplendor dos anos noventa. Muita gente se fixa nos anos 80 por que os valores atuais estão revirados. Precisam de um rumo. O bom passado serve para auxiliar também, mas não serve como uma muleta. Assim, o processo não se renova, se clona. Isso é ruim.
A grande questão do underground atual será de como ele vai se reinventar para se adaptar e conquistar identificação. O Brasil é muito suscetível à influencia da internet, principalmente nos mais jovens e para quem recebe a tecnologia como novidade. A grande rede perverte os valores que foram forjados com luta. Você lutava para se comunicar, tinha trabalho para redigir e postar cartas, trocar tapes, comprar vinil e CDs. Automaticamente o valor àquele universo vinha de dentro pra fora. De dentro de cada militante que lutou para conseguir uma gravação irremediavelmente a mesma fita passa ter um significado de simples posse. Ao passar o material pra frente outros valores eram somados.
Que valor você atribui a uma coisa que você consegue com facilidade? Nenhum! Isso quebrou a espinha do underground. Corremos um sério risco de cair no ostracismo, mas foda-se. Quem quiser assistir e ver o Poeticus vai ter que levantar o rabo da cadeira, desligar o transe hipnótico do seu PC e ir pro show.
E o cara sai de casa, do conforto do lar para ser xingado e tomar porrada, ser inquirido pelo pessoal da antiga, ser desprezado no evento...??? Olha que geração de merda, bando de frouxos, cuzões de merda. Dóceis e domesticados. Selvageria nula. Se atentem ao fato que vocês estão se tornando parte e favorecendo esse ciclo atual de merda dessa nova geração : bando de babacas de vidro. Não saem na porrada, não enchem a cara, não se drogam, não fodem, ahhhhhh. Que se fodam vocês! que se afundam nessa merda toda. O mais impressionante de tudo é que se alguém ficou puto, que faça a sua banda agora!. Está moleza hoje em dia gravar, mixar, lançar CD. Façam alguma coisa!

07- Ao longo dos tempos quais são suas bandas e lançamentos preferidos? O que você anda ouvindo atualmente e o que ouve além do Metal?

Hummm, outro dia me peguei escutando Bathory e Black Sabbath. Tem clássicos como Venom, Celtic Frost, Slayer, Death e muitos outros que simplesmente não dá para deixar de escutar. Mas não tenho escutado muita música ultimamente. Atualmente escuto as bandas do Rio que são ótimas : Grave Desecrator, Farscape, Sodomizer, Apokaliptic Raids, Atomic Roar, Whipstriker, Enterro, Impacto Profano, Sarcasmo de Minas e Hecate de Fortaleza. Além do Metal gosto de música clássica e atmosférica, mas tem fases que escuto muita música, de vários estilos diferentes.

08- Como andam as atividades com seu projeto paralelo, o Ordo Templi Hiereus?

Estou aguardando o momento favorável para poder entrar em estúdio, compus mais três sons e quero adicioná-los nesta próxima gravação, falta acertar detalhes, é provável que ainda este ano tenha novidades. Quem quiser conhecer um fragmento desta obra, segue: http://www.poeticusseverus.com/ordotemplihiereus.htm , www.myspace.com/ordotemplihiereus .

09- Na sua opinião qual a importância dos poucos zines em xerox e impressos ainda existentes na cena? Você acha que os zines digitais tomaram de vez o espaço dos tradicionais zines?

IMPORTANTÍSSIMOS! Zine é cultura. Zine não morreu na Europa. Zine é analógico, não digital, binário. É tangível. É livre. Traz a cena como ela deveria ser orientada. Quem faz Zine hoje merece muito respeito, pois é mais difícil que compor música, dá trabalho. Tem valor pungente. Tira um retrato da cena em um determinado período. Tem por isso, valor histórico. Tem mais valor hoje por que você escolhe para quem você passa. Mantém a cena forte. Adoro zine. Gosto de ler. Gosto de saber quem está falando merda e quem está mandando bem. É veículo de ideias.
Zine digital, não tenho hábito de ver. É dinâmico sim, mas no computador eu trabalho e não tenho tesão pra ler nada . Tem seu valor tácito, mas prefiro offset. É só aqui no Brasil que existe esse preconceito babaca contra o zine, que é uma merda, é mal feito, cheio de erro, bla bla bla.

10- Agradeço pela atenção, o espaço é livre para finalizar como queira:

É isso aí cambada de seres abissais. Metal é coisa séria. Hoje não vou fazer nem citar poesia alguma. Vou avisar pra todo mundo que está lendo que o Metal basicamente liberta a alma das opressões da vida e necessariamente dá prazer; se não for assim você tem algum problema sério. Vá se tratar ou vá pra puta que te pariu. Levanta o rabo da cadeira e vai pro show gritar seus demônios, ou para os seus demônios, enfim, foda-se. TIMMOR DOMINI FONS CALAMITATIS!

Amor é a lei, amor sob vontade. Al i 57

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